7 de julho de 2014

Carta de Gaspare Schopp (testemunho da execução de Giordano Bruno)

Carta do filósofo Gaspare Schopp (testemunho da execução de Giordano Bruno) para seu amigo Rittershausen em 17 de fevereiro de 1600.

Foi provavelmente graças a essa carta que Johannes Kepler (1571 - 1632), o grande astrônomo que descobriria a elipticidade das órbitas planetárias, soube da morte de Bruno. Kepler conhecia parte da obra bruniana quando o filósofo de Nola havia residido em Praga por volta de 1585.


(...) Eu mesmo seria levado a crer pela voz popular que esse Bruno foi queimado por suspeita de luteranismo, se não tivesse participado de uma reunião da Santa Inquisição, enquanto era pronunciada a condenação contra ele, e tivesse, assim, sabido a realidade dele professada. Aquele Bruno era nolano, do reino de Nápoles, da ordem Dominicana; aos dezoito anos duvidava do dogma da transubstanciação (que, certamten, repugna à razão, como te ensina o teu Crisótomo), além de negá-la veementemente, e, logo em seguida, havia começado a pôr em dúvida a virgindade da Beata Maria (a qual Crisóstomo considera sempre puta de que todos os querubins e serafins); refugiou-se em Genebra, e aí ficou por um biênio, e depois, foi expulso de lá porque não andava perfeitamente de acordo com o Calvinismo, do qual, todavia, nenhuma confissão tenha conduzido [à acusação] de ateísmo, transferiu-se para Lyon, de lá a Tolouse e depois a Paris; ali permaneceu como professor extraordinário, uma vez que via os ordinários serem obrigados a presenciar a santa missa. Depois, partiu para Londres, e publicou naquela cidade um libelo sobre a Bestia trionfante, isto é, sobre o papa, que os vossos, a título de honra quase chamam de asno. Depois, viajou até Wittemberg, e aí, se não me engano, ensinou publicamente por um biênio. Transferiu-se posteriormente a Praga, onde publicou um livro, De immenso et infinito e também De innumerabilis ( se recordo com suficiente exatidão os títulos; de fato, esses livros os tive em minhas próprias mãos em Praga), e ainda De umbris et  ideais [sic], nos quais ensina coisas horrendas e, sobretudo, absurdas, como, por exemplo, que existem infinitos mundos, que a alma passa de corpo a corpo; além do mais, de que a alma pode transmigrar em um dos outros mundos, que a alma pode habitar dois corpos, que a magia é coisa boa e lícita, que o Espírito Santo não é nada mais, nada menos que a alma do mundo, e que este princípio foi professado por Moisés, quando escreveu que aquele Espírito brotou as águas; que o mundo existe desde a eternidade; que Moisés fez seus milagres através da magia, na qual havia progredido além de todos os outros egípcios; que ele inventou as leis e que as Sagradas Escrituras são fantasias; que também os diabos se salvarão e que somente os hebreus tinham tido sua origem de Adão e Eva, os outros, Deus havia criado um dia antes, que Cristo não é Deus, mas um grande mago que enganou a todos, e que por esta razão foi enforcado, e não crucificado; que os profetas e os apóstolos foram homens comuns, magos e que muitos deles também formam enforcados.

Bruno foi introduzido na sala da Inquisição e de joelhos escutou a sentença contra ele. Essa, na verdade, foi articulada da seguinte forma: foi exposto a vida daquele, os estudos, os convencimentos e todo o trabalho que a Inquisição havia feito para tentar  convertê-lo e em adverti-lo fraternalmente, e quanta obstinação e impiedade aquele havia sustentado: depois, foi reduzido ao estado laico, ou como se diz, o excomungaram de tudo e o consignaram à autoridade secular para a punição, pedindo que essa fosse a mais clemente possível e que fosse realizada sem derramamento de sangue. Ficando isento de todas as formalidades de rito, aquele não respondeu, senão quando ameaçado. “Certamente pronunciais a sentença contra mim com maior temor que o que provo eu ao sofrê-la”. Assim, foi custodiado por 8 dia, para experimentar até o último, se quisesse se corrigir de seus erros, mas em vão. Hoje em consequência, foi conduzido ao rogo, ou seja, para um amontoado de lenha; próximo à morte, foi-lhe mostrada uma imagem do Salvador crucificado, a qual foi rejeitada com vulto desdenhoso e, portanto, morreu miseravelmente queimado...


Referência bibliográfica.

NEVES, Marcos Cesar Danhoni. Do infinito, do mínimo e da inquisição em giordado bruno. Ilhéus-BA: UESC, 2004. 203p.



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